Da GAZETA DO POVO - Alexandre Garcia
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Todas as pesquisas erraram. No primeiro turno, só duas acertaram; todas apontavam para liderança de Lula, menos Gerp e Veritá – no fim, Flávio Bolsonaro teve 2 milhões de votos a mais que Lula. Agora, a surpresa imensa: nenhuma pesquisa de opinião acertou. O próprio Lula estava desanimado e assustado, enquanto Flávio estava entusiasmado; no entanto, Lula venceu por mais de 4 milhões de votos – o petista teve mais de 64 milhões, e Flávio fez pouco menos de 60 milhões.
Atribuo isso ao desempenho de Lula no Nordeste. Mesmo com Nikolas Ferreira por lá, mesmo com Ciro Gomes apoiando Flávio no Ceará, Lula foi melhor neste segundo turno que no primeiro: agora, foram 70% dos votos válidos no Nordeste, contra 64% no dia 4. E o Nordeste tem uns 43 milhões de eleitores, incluindo o quarto maior colégio eleitoral, a Bahia. Foi a única região em que o petista venceu – Flávio ficou na frente no Norte, muito à frente no Centro-Oeste e no Sul, e ganhou também no Sudeste, mas sua vantagem não foi suficientemente grande. Em Minas Gerais, mesmo com Cleitinho e Nikolas, o desempenho de Lula foi surpreendente, e as votações do Rio de Janeiro e de São Paulo não bastaram para compensar a derrota por 70% a 30% no Nordeste.
O Nordeste, mais uma vez, foi fundamental para a vitória de Lula. E, paradoxalmente, é a região de pior qualidade de vida do país. É a região onde estão as cidades mais inseguras do país, onde há mais crime e mais pobreza. E talvez a vitória de Lula se explique porque o Nordeste é onde mais há Bolsa Família, e lá jogaram a mentira de que Flávio iria cortar o benefício. Essa mentira não colaria entre quem se lembra de que o maior aumento foi dado pelo pai de Flávio, quando o Auxílio Brasil (que era o nome do Bolsa Família quando Jair Bolsonaro foi presidente) passou para R$ 600.
Está aí o resultado. Nos próximos quatro anos só podemos esperar piora no endividamento, nos juros e na inflação, porque Lula não vai cortar ministérios, não vai cortar despesas, vai se endividar mais, o que vai desvalorizar o dinheiro e forçar juros mais altos, porque o governo vai precisar tomar mais dinheiro, elevando uma dívida que já está em R$ 11 trilhões, jogando fora R$ 1 trilhão por ano no pagamento de juros.
É verdade que Lula terá seríssimas dificuldades no Senado e na Câmara dos Deputados. Haverá crise política, porque as maiorias na Câmara e no Senado foram criadas no primeiro turno, junto com os votos de Flávio. Era uma maioria feita de encomenda pelo eleitor brasileiro para Flávio ser o presidente da República, o que não aconteceu.
Essa falta de conhecimento vai fazer com que os próximos quatro anos sejam muito difíceis. O consolo de Flávio é estar se livrando da herança de Lula, que vai pegar seu próprio legado, muito pesado. Não sei se conseguirá comprar senadores para manter Davi Alcolumbre como presidente do Senado, para nomear ministros do Supremo, para proteger os ministros com quem ele tem compromisso, como Alexandre de Moraes. Mas o que o brasileiro escolheu neste domingo foi isso: quatro anos bem difíceis pela frente.






