Do JC PE - Igor Maciel
charlesnasci@yahoo.com.br
João Campos (PSB) olha para Brasília. Raquel Lyra (PSD) olha para os municípios. O socialista aposta no apoio e na presença de Lula como sua maior arma eleitoral. A governadora conta com uma tropa de quase 150 prefeitos espalhada pelo Estado. Os dois têm instrumentos poderosos. Nenhum deles, porém, recebeu junto com o apoio uma procuração assinada pelo eleitor. Presidente não elege governador sozinho. Prefeitos também não. Entre Brasília e os municípios existe Pernambuco.
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João Campos (PSB) olha para Brasília. Raquel Lyra (PSD) olha para os municípios. O socialista aposta no apoio e na presença de Lula como sua maior arma eleitoral. A governadora conta com uma tropa de quase 150 prefeitos espalhada pelo Estado. Os dois têm instrumentos poderosos. Nenhum deles, porém, recebeu junto com o apoio uma procuração assinada pelo eleitor. Presidente não elege governador sozinho. Prefeitos também não. Entre Brasília e os municípios existe Pernambuco.
ATALHOS
Campanhas gostam de atalhos porque eleições estaduais são longas, caras e difíceis de explicar. Um presidente popular simplifica a mensagem ao apresentar alguém como integrante de seu projeto. Uma ampla base municipal oferece capilaridade, agenda, palanque e gente disposta a organizar a passagem da comitiva. Nos dois casos, o mapa parece pronto antes de o eleitor começar a preenchê-lo.
João tem razão ao tratar Lula como um ativo excepcional. O presidente possui ligação histórica com Pernambuco e já declarou apoio ao candidato do PSB. Raquel também tem razão ao valorizar os prefeitos. Eles conhecem as cidades, reúnem lideranças e ajudam a transformar ações estaduais em argumentos compreensíveis para quem está longe do Recife. O risco aparece quando instrumentos são confundidos com resultados. Lula pode abrir a porta. Os prefeitos podem indicar o caminho. Mas precisa convencer o eleitor.
PREFEITOS
Miguel Arraes aprendeu isso da forma mais dura. Em 1998, partiu para a reeleição com mais de 130 prefeitos em sua base. Era governador, carregava um nome histórico e possuía uma rede política que parecia suficiente para conter Jarbas Vasconcelos. Não foi. A campanha avançou, o governo já estava desgastado, prefeitos mudaram de lado e Jarbas venceu por mais de um milhão de votos.
A derrota não transformou prefeitos em peças decorativas. Mostrou algo mais incômodo. Prefeitos transferem estrutura com muito mais facilidade do que transferem opinião. Organizam atos, reúnem vereadores, apresentam o candidato e melhoram sua circulação. Mas não corrigem sozinhos uma avaliação negativa do governo nem obrigam o eleitor a seguir a orientação recebida.
Raquel tem hoje condições diferentes das enfrentadas por Arraes. Sua base municipal é extensa e os prefeitos possuem razões políticas e administrativas para defender a continuidade. Ainda assim, cada apoio precisará sair da lista e chegar à rua. Prefeito que posa, mas não pede voto, ajuda muito pouco.
PRESIDENTE
O movimento inverso também já foi testado. No segundo turno de 2022, Marília Arraes recebeu o apoio de Lula, utilizou sua imagem e participou com ele de uma grande caminhada no centro do Recife. Pernambuco deu ao petista uma vantagem expressiva na disputa presidencial (67%). Na urna estadual, porém, Raquel venceu Marília por 58,70% a 41,30%.
O eleitor escolheu Lula para presidente e Raquel para governadora. Separou as duas decisões porque avaliou objetos diferentes. A presença presidencial fortaleceu Marília, mobilizou a campanha e deu nitidez ao confronto. Não resolveu as questões próprias daquela eleição.
João poderá ganhar muito com Lula sem receber os votos de Lula. Seu desafio será converter o apoio presidencial em uma explicação estadual. Precisará mostrar por que a relação com Brasília melhora a saúde, a infraestrutura, o emprego e a capacidade de investimento de Pernambuco. E já que disputa contra uma adversária que já é governadora e tem boa relação com o atual presidente, o que ele pode fazer que ela já não fez e faz?
Repetir que é o candidato do presidente só mobiliza convertidos, mas eleição apertada exige conversar também com quem não aceita indicação como argumento suficiente.
ESTADO
Raquel enfrenta a mesma prova em sentido contrário. Ter a maioria dos prefeitos ao seu lado comprova força política, articulação e presença territorial. Para o eleitor, entretanto, essa rede só terá valor quando estiver ligada ao que o governo entregou e ao que ainda promete entregar. Cento e cinquenta prefeitos não substituem uma boa avaliação da saúde, da segurança, das estradas ou da educação.
A eleição não será uma disputa entre Lula e os prefeitos, embora as campanhas possam tentar vendê-la assim. Será uma disputa entre João e Raquel para transformar apoios em razões locais. Ele precisa explicar por que Pernambuco deve mudar. Ela, por que deve continuar.
Presidente puxa. Prefeito empurra. Mas nenhum dos dois vota pelo eleitor. No espaço entre essas duas forças estão o governo, o Estado e os problemas concretos que cada pernambucano encontra quando sai de casa. Resta saber qual campanha perceberá primeiro que é ali, e não apenas nos palanques de Brasília ou nas listas do interior, que a eleição será decidida.















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