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segunda-feira, 23 de março de 2026

No aguardado ano da colheita, Lula lida com uma safra indigesta

Em vez de recuperar popularidade, presidente acumula problemas que colocam em risco a sua reeleição
Da VEJA - Daniel Pereira
charlesnasci@yahoo.com.br

Preparando-se para a sua sétima candidatura presidencial, Lula esperava que 2026, como ele disse mais de uma vez, fosse o ano da colheita, em que a população finalmente perceberia as realizações do governo, a popularidade da gestão melhoraria e sua campanha à reeleição ganharia tração. Até aqui, não é o que está acontecendo.

As pesquisas mostram que a desaprovação ao governo continua maior do que a aprovação. Pior, a diferença entre os dois indicadores aumentou um pouco nos últimos levantamentos. Apesar de a publicidade oficial ressaltar o avanço em importantes índices econômicos, especialmente o aquecimento do mercado de trabalho e a ampliação da renda média do trabalhador, o mau humor da população tem crescido nessa área.

A Genial/Quaest detectou que subiram entre fevereiro e março os percentuais de eleitores que acham que a economia piorou (43% para 48%) e que o poder de compra diminuiu (61% para 64%). A corrupção também voltou a assombrar o país. Filho mais velho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, voltou à pauta do noticiário e de uma CPI no Congresso em razão de sua relação mal-explicada com Antônio Camilo Antunes, o "Careca do INSS", apontado pela Polícia Federal como operador do esquema bilionário de roubo contra aposentados e pensionistas.

A oposição também tem tentado colar o escândalo do Banco Master no governo, cujos integrantes reconhecem que as investigações podem desgastar a imagem de Lula, mesmo que ele não tenha nada a ver com a maior fraude bancária da história do país, que deixou um rombo de mais de 50 bilhões de reais.

Não bastassem as dificuldades domésticas, o cenário internacional não tem sido favorável. Os ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã fizeram subir o preço do petróleo no mundo e dos combustíveis no Brasil. Em resposta, o governo zerou o PIS e o Cofins sobre o óleo diesel numa tentativa de baixar o valor do produto e evitar uma greve de caminhoneiros. A paralisação não foi realizada, mas não está descartada. Além dela, os aliados temem que o conflito externo provoque mais inflação no Brasil, o que teria efeitos eleitorais explosivos.

Os custos da safra 2026 são visíveis no quadro eleitoral. As simulações de segundo turno realizadas por quatro institutos renomados revelam um empate entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro. Na Genial/Quaest, o oposicionista apareceu pela primeira vez à frente do presidente no eleitorado independente, considerado o fiel da balança da próxima votação: 32% a 27%. Quando falava em colheita, Lula sabia que a sucessão presidencial não seria fácil. Ele só não esperava, como ocorre até agora, tanta dificuldade.