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segunda-feira, 11 de maio de 2026

Em incursão pelo Agreste, João Campos explora raízes familiares para avançar no interior

João Campos, durante entrevista na Surubim FM.
Foto: Danilo Leal/Talitha Rodrigues
Do JC PE - Rodrigo Fernandes
charlesnasci@yahoo.com.br

O ex-prefeito do Recife e pré-candidato ao governo de Pernambuco João Campos (PSB) transformou sua incursão pelo Agreste e pela Mata Norte do estado, no fim de semana, numa sucessão de referências à herança política da família. Em quatro municípios visitados, Santa Cruz do Capibaribe, Surubim, Limoeiro e Tracunhaém, o nome do pai, o ex-governador Eduardo Campos, e o do bisavô, o ex-governador Miguel Arraes, apareceram como âncoras do discurso político. A estratégia foi explícita já na sexta-feira, em Santa Cruz do Capibaribe, onde João visitou o Calçadão Miguel Arraes de Alencar. A obra foi viabilizada na gestão de Eduardo Campos, mas inaugurada após sua morte, em agosto de 2014.

No sábado, em Surubim, João evocou diretamente o legado do bisavô ao mencionar o Chapéu de Palha, programa de transferência de renda para trabalhadores rurais da agricultura familiar que se tornou uma das marcas da gestão Arraes. "Pude ouvir histórias bonitas e emocionantes da trajetória do nosso conjunto político, histórias que vêm de um tempo de luta, que vêm da eletrificação rural, do Chapéu de Palha", disse o pré-candidato. Em Limoeiro, a menção partiu de um vereador e pré-candidato a deputado estadual: "Tenho certeza de que você vai seguir a história de seu bisavô e de seu pai", falou o parlamentar em direção a João.

Já no domingo, Dia das Mães, em Tracunhaém, na Mata Norte, João Campos homenageou a mãe, Renata Campos, e voltou ao nome do pai durante caminhada pela feira e visita a mestres artesãos que preservam a tradição do artesanato em barro. "Minha mãe liderou por oito anos o trabalho de cuidado com os artesãos de Pernambuco e houve uma presença muito forte, não só na organização da Fenearte, que foi ampliada e teve uma dimensão gigante pelas mãos dela e de Eduardo Campos, mas na valorização permanente", afirmou.

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A recorrência das menções a Eduardo Campos e Miguel Arraes não é acidental. No interior de Pernambuco, e especialmente no Agreste, a memória dos dois ex-governadores ainda tem peso eleitoral concreto, e João Campos sabe disso. Para a eleição de outubro, o pré-candidato enfrenta um desafio estrutural, já que sua trajetória política foi construída no Recife, onde exerceu dois mandatos como prefeito e acumulou altos índices de aprovação.

No interior, a equação é outra. Ali, o capital político da família precede o seu, e evocar o pai e o bisavô é uma forma de pedir emprestado uma legitimidade que ainda não é inteiramente sua. Pelo contrário, o Agreste é o centro do reduto eleitoral de Raquel Lyra, que administrou Caruaru por dois mandatos. Além disso, Santa Cruz do Capibaribe foi a única cidade pernambucana em que Jair Bolsonaro foi mais votado do que Lula em 2022.

Há também uma dimensão de disputa de narrativa. Ao associar obras e programas do passado ao percurso que termina em sua candidatura, João Campos busca apresentar sua eventual chegada ao governo estadual como uma continuidade de um projeto político que ultrapassa as gerações. A aposta, porém, não é isenta de riscos. O último mandato de Miguel Arraes terminou em 1998, há 27 anos. Já Eduardo Campos deixou o governo em 2014, há 11 anos. O tabuleiro político de 2026 é outro, com novos atores e forças reconfiguradas. Evocar o passado pode mobilizar memória afetiva, mas não é garantia de substituição de uma identidade política construída para o presente.