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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Culpar o eleitor é mais confortável do que reconhecer os próprios erros

Partidos aplaudem a vontade popular quando vencem e questionam o julgamento do cidadão quando perdem. Respeitar a democracia exige aceitar a recusa
Do JC PE - Igor Maciel
charlesnasci@yahoo.com.br

O eleitor brasileiro é "muito inteligente". Até votar em quem você não queria e aí você fica "decepcionado e preocupado com ele". Na vitória, o povo demonstrou consciência, maturidade e compromisso com o futuro. Na derrota, aparecem as explicações sobre manipulação, ignorância e "incapacidade de compreender o que estava em jogo". A inteligência do brasileiro parece depender de quem ele escolhe. Se confirma a preferência do partido, merece aplausos. Se contraria, precisa de uma aula sobre História. Na prática isso é quase uma celebração da soberba. E é assim que alguns partidos e grupos de eleitores mais apaixonados funcionam.

SABEDORIA

Há uma conveniência evidente nessa maneira de interpretar a democracia, a liberdade ou a História. A vontade popular é soberana enquanto concorda com a vontade de quem pede o voto. Quando as duas se separam, começa a busca por algum defeito no julgamento do eleitor. O candidato fez tudo certo, o projeto era excelente, a campanha explicou o necessário. Foi o brasileiro que não entendeu ou a comunicação que errou. Para alguns partidos, o povo tem todo o direito de escolher, desde que escolha os candidatos da sigla.

É possível discutir as razões de uma votação, questionar propostas e apontar as consequências de uma escolha. Isso faz parte do debate político. Mas há uma arrogância em presumir que milhões de pessoas só discordaram de você "porque foram enganadas". Essa explicação também é confortável para o ego. Dispensa o partido de examinar seus erros e permite que o candidato saia da eleição convencido de que continua certo sobre tudo. É o caso do PT.

RECUSA

Lula e o PT precisam enfrentar uma possibilidade que parece especialmente incômoda para quem se acostumou a dizer que "conhece o povo brasileiro". O eleitor pode ter entendido perfeitamente a mensagem e decidido que não a queria. Dói, mas pode ser a verdade. O eleitor pode conhecer as realizações de um governo, reconhecer algumas delas e, ainda assim, considerar que sua vida exige outra resposta. Pode ouvir o presidente, compreender seus argumentos e concluir que prefere outro candidato.

Se você não admite ouvir que está no caminho errado, o projeto nunca precisa mudar. É suficiente explicar novamente, falar mais alto, encontrar uma propaganda melhor. Fica faltando perguntar se o brasileiro está insatisfeito justamente com aquilo que o governo insiste em oferecer. Quem só admite que houve um problema na estratégia da mensagem evita discutir o conteúdo. E não é por acaso que ao ficar em segundo lugar no primeiro turno o PT tenha partido para dizer que o problema é a comunicação. Mas o Brasil de hoje é o que os brasileiros querem? O Brasil de 2002, de 2006, de 2010, é o que os brasileiros querem em 2027? Porque é isso que o PT está oferecendo em sua "cesta de produtos".

ESCOLHA

O voto reúne preocupações que nem sempre cabem nas prioridades de uma campanha. O eleitor pode estar pensando na renda que não alcança o fim do mês, no medo de voltar para casa, na espera por atendimento ou numa promessa que ouviu tantas vezes que deixou de acreditar. Também pode considerar religião, valores e rejeições. Um partido não ganha o direito de ordenar essas preocupações só porque se apresenta como defensor dos interesses populares.

Receber um benefício público, por exemplo, não cria obrigação de fidelidade eleitoral. O dinheiro é público, o programa é uma política de governo e o voto pertence ao cidadão. O governo pode reivindicar reconhecimento, mas não pode transformar esse reconhecimento em dívida. Um brasileiro pode agradecer por uma ajuda e continuar cobrando emprego, segurança e perspectiva de futuro. Ele não precisa pedir licença para desejar alguma coisa além do que já recebeu. E isso não o torna ingrato. Cobrar é um direito.

ESPELHO

A cobrança vale para a direita também. Quem exige respeito ao eleitor que escolhe um Bolsonaro precisa respeitar o eleitor que escolhe o PT. Chamar o voto alheio de comprado, presumir que todo beneficiário de um programa social está à venda ou tratar uma região inteira como incapaz de decidir reproduz a mesma arrogância fundamental. A liberdade de escolha não muda de valor conforme o candidato que recebe o voto.

Nenhum dos lados precisa abandonar suas convicções ou deixar de criticar o adversário. Precisa aceitar que o outro brasileiro também tem razões, experiências e prioridades. Ele pode fazer uma escolha que você considere ruim. Pode até se arrepender depois. A democracia não exige que o cidadão apresente um atestado de acerto antes de votar. Exige que sua decisão seja respeitada.

RESPOSTA

Antes de perguntar o que há de errado com o brasileiro porque não votou como se imaginava, um partido deveria examinar o governo que fez, a campanha que ofereceu e as preocupações que ignorou. Essa revisão incomoda porque obriga dirigentes a admitir falhas e abandonar certezas. Culpar o eleitor é muito mais fácil. Ele não participa da reunião partidária para responder. Quem quer o voto do brasileiro precisa aceitar que ele pode dizer não para você. E entender que isso também é democracia.